Home

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

O perigo dos Jabutis

O Jabuti é um réptil da família Testudinidae (primo das tartarugas e cágados) de casco convexo, pernas grossas e adaptadas à vida terrestre. Na cultura indígena o Jabuti é um herói mítico, e em sua homenagem temos o maior prêmio da literatura brasileira (o Prêmio Jabuti).

Além disso, no processo político brasileiro convencionou-se chamar de "jabuti" a inclusão de uma norma estranha à um determinado projeto de lei. Esta anedota é inspirada no ditado popular "jabuti não sobe em árvore", para definir algo que é estranho e não ocorre naturalmente.

A temática do "jabuti" está em alta neste momento devido ao debate sobre o garimpo ilegal e a chamada presunção de boa fé, um dispositivo que desobriga as instituições que compram minério de investigar a procedência daquele produto.

Como surgiu este dispositivo? O ano era 2013 e a então Presidenta da República sancionou uma Medida Provisória (MP) em que o objetivo principal era a ampliação do Programa Garantia-Safra, beneficiando agricultores prejudicados por estiagem ou excesso de chuvas.

Por motivos bastante questionáveis, um deputado atendeu à uma demanda da Associação da Comercialização de Ouro (ANORO) para incluir, no meio da MP do Programa Garantia-Safra, o dispostivo da presunção de boa fé, o qual na prática dificultou imensamente a fiscalização da procedência do minério.

Independente da responsabilidade desse deputado, o que chama a atenção é o fato do Congresso Nacional e do Executivo Federal sancionarem essa MP um tanto "exótica". Até mesmo um leigo acharia estranho tratar de garimpo e comercialização de ouro num projeto no qual o objetivo é apoiar o agricultor prejudicado por eventos climáticos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Insistindo no Erro: sobre juros subsidiados e industrialização.

Volta e meia, algum economista "bem intencionado" sugere um atalho para elevar a competitividade e promover o crescimento da indústria brasileira, a velha "fábula" dos juros subsidiados/reduzidos.

Em encontro recente na FEBRABAN, o atual presidente do BNDES levantou novamente esta questão, argumentando que a redução da TLP, taxa de juros dos empréstmos do BNDES, é essencial para a "reindustrialização" do Brasil.

Primeiramente, recomendo ao estimado Alozio Mercadante a leitura do artigo "What do state-owned development banks do? Evidence from BNDES", publicado no conceituado periódico World Development

Os autores concluem que os empréstimos do BNDES não aumentaram a performance nem os investimentos das empresas agraciadas pelo Banco Estatal. E o mais interessante, o artigo mostra que as empresas que receberam empréstimos poderiam realizar os projetos à taxas de mercado e/ou utilizando capital próprio.

A maioria das pessoas que já trabalhou na Tesouraria de uma grande empresa no Brasil não se surpreende com esse resultado. É comum que os diretores financeiros coloquem como meta financiar projetos com recursos do BNDES. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Reflexões dos 35

Economistas são conhecidos por fazer previsões e muitas vezes pelos erros nestes exercícios de "futurologia". Se me perguntassem no passado como seria minha vida hoje, minha previsão seria completamente errada, aumentando o erro de previsões deste economista que compartilha estas palavras.

Não preciso ir muito longe, se pegarmos aquela pergunta clássica de entrevista de emprego "como e onde você se imagina em 5 anos?", o ano seria 2017 e eu encontraria uma versão muito diferente da minha pessoa. 

Estava num momento de transição da área financeira para a área acadêmica, no meio do curso de Mestrado Profissional. Mesmo com grande simpatia pela carreira de professor pesquisador, não imaginava que as coisas teriam evoluído tão rápido nessa direção.

Em 2017 também estava num processo de mudança de cidade, após alguns anos morando e trabalhando no interior, retornei à capital de São Paulo em virtude de uma transferência de área e função na empresa na qual eu trabalhava. Naquela época minha previsão era de passar muitos anos naquela Companhia, consolidar minha carreira na área financeira e talvez me aposentar lá. Pois é, não aconteceu!

Também em 2017, houve perdas e términos dolorosos. Esse ano marcou o falecimento do homem que exerceu na minha vida a figura paterna que não tive do meu pai biológico. Perder meu padrinho tão jovem, também não estava nas minhas previsões. Paralelamente eu passava pelo processo de mudança do meu estado civil para um homem divorciado.

Foi difícil entender que um fim pode servir de recomeço, talvez em outro lugar e com outras pessoas, Estórias que se encerram são grandes aprendizados para as estórias que serão escritas. Pessoas podem decidir seguir por caminhos distintos, mas de certa forma uma parte delas fica conosco, a parte em que fomos modificados por ter convivido com estas pessoas.

Algo que hoje me entristece, e eu também teria errado feio numa previsão em 2017, é o atual estado de ânimos da sociedade brasileira, grande parte motivado por divergências políticas. Ter simpatia por partido ou liderança polítca sempre existiu e sempre existirá. Entretanto, jamais imaginava o atual quadro de "nós contra eles", como se fosse possível qualquer homem (presidente ou não) determinar quem está do lado certo e que está do lado errado da História. 

Inflamar o ódio entre brasileiros e simpatizar apenas com quem concorda contigo não ajuda em nada a resolver os problemas do país. Retrocedemos muito como sociedade, e pautas importantes como traçar um plano para recuperar o atraso na educação de milhares de crianças que sofreram com a precariedade das aulas online em escolas públicas estão em segundo plano diante de ideias controversas como homeschooling.

Esse exercício de reflexão revela que as coisas se desenrolam de forma muito diferente do que imaginamos e/ou planejamos. A esperança está no fato de que é possível se surpreender positivamente. Ninguém fica triste se a realidade se mostrar muito melhor do que a expectativa, e isso também ocorreu no meu caso. 

Eu tinha um certo desejo de ser pai, mas a sensação é muito mais maravilhosa do que eu projetava. Hoje, meu filho e minha namorada, me fazem feliz de uma forma que eu jamais imaginaria em 2017. Daqui em diante, a única previsão que gostaria de acertar é a de estar com eles num Brasil melhor do que este que vivemos hoje. 






sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Olha o Gás!!!

Não precisa ser economista para notar que tudo está caro.... mercado, gasolina, energia elétrica e também o botijão de gás

Nesse cenário pandêmico, em que a atividade econômica ainda patina e convivemos com uma alta taxa de desemprego, preços em alta são um grande complicador para todos os brasileiros, mas em especial para os mais pobres.

Alimentos e itens básicos como botijão de gás e energia elétrica comprometem uma parcela substancial da renda das famílias mais pobres. Além disso, os que são trabalhadores informais via de regra não recebem reajustes salarias atrelados aos índices de inflação, como acontece para os trabalhadores CLT e servidores públicos. 

Por fim, a maior parte da população pobre não é "bancarizada" ou possui uma reserva financeira, isto é, quando tudo fica mais caro, não há um valor na poupança para cobrir o rombo no orçamento, muito menos investimentos indexados aos índices de inflação para proteger estes trabalhadores da elevação de preços.

Assim, é fácil ver que passamos por um momento nada animador para os mais pobres no Brasil, alto desemprego, inflação em alta e mais de 500 mortes diárias decorrentes da Covid-19.

Nesse contexto é compreensível e até esperado que o Governo Federal intervenha de alguma forma para mitigar os efeitos nocivos da alta do preços dos produtos básicos, em especial em prol de populações vulneráveis como os beneficiários de programa assistencial.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Apelou Perdeu

Num passado distante, quando eu jogava bola descalço no campinho perto de casa, havia uma figura chave na peleja: o dono da bola!

Nem sempre o dono da bola era o melhor jogador, muitas vezes era justamente o oposto, um garoto com pouca habilidade futebolística mas com muita vontade de participar (além de recursos para comprar as famigeradas "bolas de capotão").

Ser o dono da bola lhe conferia algumas vantagens, em geral você podia escolher o time e era o último a ir pro gol em caso de revezamento, além do óbvio "poder" de saber que a partida só começa quando você chegar e se encerra quando você vai embora.

Uma situação chata, embora rara, era quando o dono da bola ficava "puto"por algum motivo e levava a redonda embora no meio da partida.

Os motivos mais comuns eram uma entrada mais violenta de um oponente ou uma derrota acachapante. A reação da geral era tachar o guri de mimado ou acusá-lo de não saber perder.

A moral da história é que, embora haja um acontecimento que lhe chateie, seja uma entrada dura ou a superioridade do oponente, acabar com o jogo é uma saída covarde. Em outras palavras, fica a impressão de que o jogo só faz sentido ser jogado quando lhe é favorável.

O atual Presidente da República é alguns anos mais velho que este escriba, infelizmente não tive a oportunidade de enfrentá-lo numa partida com gols marcados por chinelos e/ou pedras e traves improvisadas com tocos de madeira.

sábado, 17 de abril de 2021

Mais Pragmatismo

Você prefere ganhar R$ 50 por dia com certeza ou todo dia participar de uma loteria com 50% de chances de ganhar R$ 100 e 50% de chances de ganhar R$ 0?

Em termos de racionalidade econômica, estas duas alternativas são equivalentes, mesmo numa loteria em média os indivíduos vão ganhar R$ 50. Alguns dias ganharão R$ 100, em outros R$ 0 mas no longo prazo em média os ganhos diários serão de R$ 50.

A preferência por um ou outro cenário diz muito sobre a aversão de risco das pessoas, indivíduos que prezam por segurança e estabilidade muito provavelmente optarão por ter um rendimento certo à correr o risco de uma loteria. 

Já pessoas com maior atração ao risco podem optar pela loteria, talvez guiadas pela sensação de que possuem mais sorte ou simplesmente pelo fato de gostar da adrenalina e sensação de ter um rendimento mais elevado em alguns dias.

Outra questão interessante sobre finanças e comportamento é a escolha entre comprar à vista ou à prazo. O determinante aqui é um pouco mais sútil, a impaciência dos indivíduos. Grosso modo, pessoas mais "ansiosas" preferem pagar à vista, mesmo que não haja qualquer desconto pela antecipação do pagamento.

Do lado do vendedor o raciocínio é simétrico, os mais "ansiosos" vão estimular vendas à vista e até oferecer descontos para que o comprador pague no ato da compra. Outra estratégia é cobrar juros daqueles que optarem por inúmeras e suaves prestações.

Aqui a taxa de juros é um sinalizador da "impaciência", quanto mais ansiosos os compradores e vendedores num mercado, maiores os juros para as compras parceladas ou, de forma análoga, os descontos solicitados para pagamento à vista. 

sexta-feira, 26 de março de 2021

Sobre Perdas Mensuráveis e Imensuráveis

Quando se estuda modelos econômicos de criminalidade e vitimização, um fator que é muito difícil de mensurar é a perda de bem estar decorrente da probabilidade de ser vítima de um crime.

Trocando em miúdos, provavelmente há muitas pessoas que numa noite de verão gostariam de andar tranquilamente no calçadão da praia, no entorno da lagoa ou num parque, mas pelo medo de serem assaltadas (ou algo pior) simplesmente optam por ficar em casa.

Na realidade brasileira e de outros países com alta criminalidade isso é algo muito latente. Vivemos num contexto em que é normal criarmos táticas para tentar minimizar as possíveis perdas com crimes.

Por exemplo, muitos evitam sair com dinheiro em espécie e mais de um cartão de crédito na carteira ou possuem um celular reserva para levar em festas, uma espécie de preparação de bens que se forem furtados/roubados não nos prejudiquem tanto.

Em outros casos como o risco de ser agredido e/ou violentado não há muita alternativa que não seja se abster de programas sociais à certas horas da noite ou em certas localidades tidas como "perigosas".

Em síntese, a insegurança impõe uma restrição ao consumo e bem estar dos indivíduos.

Em tempos pandêmicos, o paralelo desta restrição ao consumo é bem direto. Medidas de distanciamento limitam o deslocamento das pessoas e consequentemente a possibilidade de desfrutar da corrida matinal no parque, o fim de tarde na praia e a resenha com os amigos no buteco da esquina.

Entretanto, há algumas particularidades. 

Por um lado, uma pessoa dificilmente anda tranquila com um celular caro e um relógio importado tarde da noite numa rua pouco iluminada, porém, ainda hoje vejo que é difícil para muitos compreender que estar na rua ou em aglomerações (num contexto de caos na saúde pública) é se expor à uma ameaça tão ou mais letal que um roubo/furto.

domingo, 10 de janeiro de 2021

“Fazer previsões é difícil, especialmente sobre o futuro”

Essa frase do físico dinamarquês Niels Bohr poderia ser um mantra de todos que trabalham com Economia e Política.

Alguns usam bola de cristal, outros analisam o alinhamento dos astros mas os economistas em geral (em especial os mais sérios) utilizam dados e modelos estatísticos para fazer previsões.

Falando de Finanças, tentar prever o futuro possui como um dos principais objetivos evitar perdas de patrimônio. 

Um instrumento muito comum nessa linha é o Seguro. `Pessoas físicas e jurídicas pagam um valor (prêmio) para se proteger de algum evento negativo (sinistro) como por exemplo o roubo de um veículo, o incêndio da casa, doenças graves, etc.

Agora imagine que você comprou uma casa por meio de um financiamento imobiliário e que todo mês você recebe um boleto com o valor da parcela mais os juros. 

Dependendo do tipo de contrato, um dos riscos que você pode se defrontar é que a taxa de juros se eleve e assim o seu boleto fique com o passar do tempo mais e mais caro. 

Dessa forma, seria interessante contratar um seguro no qual você soubesse com certeza o valor de cada boleto até o fim do financiamento para se proteger desse risco.

Esse exemplo é uma forma resumida para explicar o que são Contratos de Juros Futuros. Estes instrumentos negociados na Bolsa de Valores (B3) tem como principal objetivo garantir a taxa de juros por um determinado período de tempo.

O gráfico abaixo mostra a curva de juros futuros da B3 com os dados do último pregão (9.jan.21):


sábado, 5 de dezembro de 2020

Quando o Passado é Incerto

Se houvesse um campeonato mundial de insegurança jurídica acredito que o Brasil seria o grande favorito. Embora seja difícil fazer esta comparação, os inúmeros casos de diferentes decisões judiciais sobre um mesmo tema causam perplexidade.

A frase "no Brasil até o passado é incerto" é de autoria duvidosa, alguns à atribuem ao ex-ministro da Fazenda Pedro Malan mas a jornalista Miriam Leitão afirmou ter ouvido tempos antes a mesma expressão do ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola.

Para os amantes de futebol talvez o caso mais emblemático de passado incerto seja o do Campeonato Brasileiro de 1987. É uma confusão tão grande que até o resumo do wikipedia parece um capítulo de debate jurídico. 

Resumindo, oficialmente o Sport foi o campeão brasileiro do torneio da CBF porém o Flamengo acredita ser o verdadeiro campeão por ter vencido o campeonato paralelo organizado pelo Clube dos 13.

A polêmica foi tão grande que o Flamengo levou o caso a Suprema Corte Brasileira. Isso mesmo, a instância máxima da justiça teve que resolver essa relevante questão para a sociedade brasileira poder dormir tranquila. 

Em 2018 o STF reconheceu o Sport como único campeão brasileiro de 1987, mas muito provavelmente inúmeras pessoas ainda acreditam que o Flamengo foi o verdadeiro campeão, ou que excepcionalmente houve dois campeões naquele ano.

Não é raro que casos exóticos como o do campeão brasileiro de 1987 sejam julgados pelo Supremo, principalmente quando indivíduos tentam utilizar a justiça da forma que mais lhes favorece.

Hoje presenciamos um destes debates num tópico talvez mais relevante do que um torneio de futebol. Os Presidentes da Câmara e do Senado federal, Rodrigo Maia e David Alcolumbre, discordam do seguinte trecho da Constituição Federal:

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Métrica

O economista adora opinar sobre assuntos de diversas áreas como saúde, educação, violência e discriminação. Grande parte se deve a nossa curiosidade, porém o fundamental da intervenção do economista deveria ser a sua "caixa de ferramentas" para medição de impactos sociais.

Uma das definições de métrica é "o conjunto de regras que presidem a medida". A origem da palavra está relacionada ao rigor para a versificação de um poema.  Coincidência ou não, uma das maiores revistas de Economia do mundo (reconhecida pela exigência de grande rigor matemático) se chama Econométrica.

As ferramentas que usamos para medir impactos sociais nos permitem abordar questões de grande impacto para a sociedade, a exemplo de "como barreiras de entrada e discriminação à mulheres e negros no mercado de trabalho impactam o crescimento de um país?".

Esta pergunta foi abordada por pesquisadores da Universidade de Chicago e Stanford em artigo publicado na Econométrica. 

O texto menciona o exemplo da primeira Juíza da Suprema Corte Norte Americana, Sandra Day O'Connor, que apesar de ser uma das 3 melhores alunas da Escola de Direito de Stanford, após sua formatura em 1952, recebeu apenas uma proposta para ser Secretária.

Nesse sentido, não é preciso muito cálculo para avaliar que Sandra O'Connor era muito mais qualificada que vários colegas os quais receberam propostas de grandes escritórios. Nesses casos é importante destacar que a sociedade como um todo perde quando pessoas com talento não recebem oportunidades compatíveis com sua formação ("misallocation").

Utilizando ferramentas econométricas, os autores procuram avaliar dois fenômenos: (i) as barreiras de entrada para mulheres e negros ingressarem no mercado de trabalho e (ii) a discriminação que eles sofrem já empregados.

Parte da estratégia é baseada na mudança da composição racial e de gênero observada em algumas profissões nos últimos anos. Nos EUA em 1960, 94% dos médicos eram homens brancos enquanto em 2010 este percentual chegou a 62%.

O gráfico abaixo mostra a evolução das barreiras de entrada às mulheres. Valores maiores que 1 apresentam dificuldade para ingressar numa determinada profissão. Repare que na área de Construção Civil as mulheres ainda encontram uma grande barreira porém entre Médicos e Advogados houve uma queda significativa ao longo dos anos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Prédios no Coração do Condado

Hoje uma série de posts do candidato a vereador em São Paulo Matheus Hector pintou em um dos meus grupos de whatsapp.

O rapaz que se declara um "hipster" que ama urbanismo e patinetes elétricos (lembra deles?) lançou a "braba", irá lutar para que você more mais perto das áreas nobres de São Paulo, conhecido por estas bandas como "O Condado".

Numa série de posts ousados, o jovem destaca que "você vai poder comprar um apê top no Jardim Europa".

Antes de falar sobre essa ideia um tanto quanto exótica para uma campanha política, fica a pergunta: você sabe quantos votos são necessários para ser eleito como vereador em São Paulo?

Resposta: em 2016 foram necessários 12 mil votos (Sâmia Bonfim - PSOL). Numa cidade com mais de 8 milhões de eleitores parece uma tarefa bem simples não? 

Só para ter uma ideia, Matheus Hector possui 6 mil seguidores no twitter, num mundo em que todos os seguidores votassem nele e convencecem um amigo ele teria grandes chances de ser eleito.

Mais do que falar de Economia, essa campanha me chamou a atenção por dois motivos: (i) estratégia e (ii) benefícios difusos.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

It’s the economy, stupid!*

De quanto vale a racionalidade econômica durante uma pandemia?

Nos livros textos de economia, os agentes econômicos (eu, você e todo mundo) toma decisões auto interessadas, baseadas naquilo que aumenta nosso próprio bem-estar. Esse comportamento é uma premissa básica de muitos modelos econômicos e está presente em boa parte das políticas públicas e decisões de gestão de empresas.

Ocorre que estamos vivendo em um cenário que os seriados mais malucos não puderam prever (leia-se Black Mirror, por exemplo!). Vivemos dias tão surreais com o isolamento social de boa parte da população mundial, que muitos criativos não ousaram imaginar.

Com essa situação imprevisível, nosso antigo caderninho de receitas já não está nos servindo tão bem. É um mundo novo. Ficar longe de quem se gosta, por exemplo, virou prova de carinho. Os desafios são imensos e indivíduos, empresas e governos têm se dividido entre quais decisões tomar frente ao cenário que se apresenta.

Em Economia é comum (e muitas vezes mandatório) a utilização do método científico para analisar assuntos pertinentes à vida cotidiana. Em linhas gerais, é realizada a observação cuidadosa de dados e/ou indivíduos para elaboração de um teste de hipótese, cuja tese principal possa ser comprovada ou refutada.

Parece estranho, não? Afinal, estamos muito mais acostumados a ver testes assim na área médica ou farmacêutica, quando se busca comprovar os efeitos de um novo tratamento ou remédio, do que um experimento que envolve as decisões comportamentais de um indivíduo.

Como economista, um dos nossos maiores desafios é o chamado contrafactual, ou seja, o que teria ocorrido se houvessem sido tomadas decisões hipotéticas em um cenário igualmente hipotético. Esse é um dilema pelo qual todo mundo passa.

Imagine, por exemplo, um casamento de 30 anos em que um dos parceiros pensa: “se eu não tivesse casado, minha vida seria muito melhor” ou “se eu tivesse esperado mais alguns anos para ter filhos, teria aproveitado mais”.

Como assim? Como vamos saber? Como testamos a validade destas afirmações? Afinal, o cenário que temos para analisar é exatamente aquele que ocorreu. Enquanto não existem máquinas do tempo para voltarmos no passado e corrigirmos algumas rotas, não existe o contrafactual.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Nicolas Cage e Afogamentos

É curioso como muitas questões voltam à tona, parece que gostamos de debater a mesma questão várias vezes na esperança de encontrar resultados diferentes.

Quando eu ainda estava na faculdade, nos idos de 2006 a 2010, era muito comum debater a diferença entre correlação e causalidade usando como caricatura a "sintonia" entre os filmes do Nicolas Cage e o número de afogamentos em piscinas num ano.

As tendências eram de fato muito parecidas, entretanto, podemos afirmar que, o aumento no número de filmes do ator aumenta o número de pessoas que se afogarão? Ou o contrário, que para combater os afogamentos em piscinas basta pagar para o Nicolas Cage ficar em casa e/ou proibi-lo de gravar?

Acredito que poucos discordarão que tal correlação é uma mera coincidência. Neste caso, podemos nos poupar do trabalho estatístico e apelar para o bom senso, porém, nem sempre é tão fácil assim.

O economista André Perfeito tuítou hoje um gráfico polêmico no qual mostrava a forte correlação entre o Preço do Cobre e o Crescimento do PIB do Chile. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Crônicas de um Velho Economista

A anedota é antiga, um pescador tinha uma vida humilde numa vila tranquila. Com trabalho árduo conseguiu um emprego na "cidade grande", acumulou grande patrimônio e assim conseguiu ter um final de vida tranquilo num lugar pacato em que pudesse pescar e não se preocupar com mais nada.

Claro que a caminhada que se inicia e se encerra num mesmo lugar não é inútil, quem corre sabe que a maioria das provas é assim, o percurso é tão ou mais importante do que a linha de chegada (que muitas vezes é a mesma da partida).

Porém, não deixa de ser emblemático nós nos desgastarmos tanto fisica e psicolagicamente para muitas vezes apenas retornar ao início.

Nessa vida, tal caminhada muitas vezes é motivada por objetivos como acumular recursos tanto para nós como para nossos familiares (ascendentes ou descendentes) e, dessa forma, proporcionar à todos um caminho menos árduo.

Por outro lado, algumas horas penso que entramos numa grande centrífuga que nos puxa para um certo destino aparentemente inexorável, sem sequer questionarmos os motivos desta caminhada.

Por que precisamos crescer profissionalmente? Por que precisamos acumular tantos recursos? Por que precisamos provar diariamente em jornadas de trabalho estressantes e cansativas que merecemos melhores cargos e remuneração?

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Hoje eu sei

"Quanto mais aumenta nosso conhecimento, mais evidente fica nossa ignorância." 

Tal frase teria sido proferida por John F. Kennedy mas tenho certeza que você já deve ter ouvido algo semelhante que expressa a espécie de paradoxo existente entre a busca de conhecimento e a constatação de que sabemos pouco ou quase nada.

Entre Ensino Básico, Fundamental, Médio, Superior, Especialização, Mestrado e Doutorado (em curso), hoje eu vejo que passei praticamente a minha vida toda em salas de aula, rotina de estudos que provavelmente manterei até o final da minha vida, seja em instituições de ensino ou fora delas.

Apesar de teoricamente ter acumulado tanto conhecimento ao longo destes anos hoje para mim é muito clara a dificuldade para achar respostas para problemas sejam eles compelxos ou mesmo aqueles aparentemente simples. 

Por exemplo, resolver equações matemáticas e problemas estatísticos demandam muita técnica e capacidade intelecutal porém, tal dificuldade é maior ou menor de que diagnosticar o motivo de choro de um bebê no meio da madrugada ou fazer uma receita tão boa quanto à da sua avó num almoço de domingo?

Estudar por tanto tempo te deixa um tanto quanto "bitolado" neste mundo acadêmico, o efeito perverso é que, além de mergulhar num oceano de conhecimento no qual na prática você irá desbravar uma parcela minúscula, você também corre o risco de deixar de lado muita coisa valiosa que ocorre na vida real.

sábado, 18 de maio de 2019

E se Amoêdo fosse o Presidente da República?

Amigas e amigos, sim, acreditem o blog ainda está ativo mesmo após tanto tempo de silêncio.

Tendo lido muitas coisa boa no campo de publicações econômicas, destaque para textos com uma forte pegada empiríca, isto é, testando hipóteses com experimentos aplicados na vida real.

Colocando em termos mais simples, seria muito fácil escrever e dizer que algo funciona mas será que há evidências que corroboram isso ou seria apenas um apanhado de palavras e equações numa folha de papel?

Um ponto que é particularmente vital quando se trata de medir o impacto de uma medida é avaliar num grupo razoavelmente homogêneo a aplicação aleatória de um tratamento.

Dessa forma teríamos um grupo de tratamento e um outro grupo que chamamos de controle. Este procedimento é muito comum na indústria farmacêutica, um grupo de pessoas com um determinado quadro clínico é submetido à uma medicação e certas pessoas recebem o remédio em questão e outras apenas um comprimido de açúcar (placebo).

Pois bem, colocado este pano de fundo, o sábio leitor deve concordar comigo que na indústria farmacêutica deve haver uma série de complexidades porém não parece absurdo imaginar tal procedimento. 

Agora, falando de Economia, como fazer experimentos na vida real quando se trata de um país ou mesmo de um grupo de empresas?

Aí o negócio complica, por exemplo, se quisermos testar a hipótese de que a taxa de juros causa crescimento econômico, tal tratamento neste caso seria aplicado ao país Brasil mas quem seria o controle? Um Brasil genérico no qual não reduziriamos a taxa de juros?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ao vencedor as Batatas!

A expressão "Ao vencedor as Batatas" é de autoria do personagem Quincas Borba do excepcional Machado de Assis. 

A teoria de Quincas por trás dessa expressão é que, num cenário de recursos escassos, por exemplo poucas batatas para alimentar duas tribos, não é possível uma convivência pacífica entre os dois lados, de forma que a guerra é inevitável. 

Assim, a guerra seria a única forma de que alguém sobrevivesse, uma vez que tentar compartilhar os recursos seria inútil, já que todos se alimentariam abaixo de suas necessidades calóricas.

A eleição de 2018 em muito se assemelhou a uma guerra em que apenas uma verdade ou um lado poderia sobreviver, não sendo possível a existência de um pensamento contrário à certas correntes ideológicas. 

Pois bem, passado o pleito eleitoral alguns desempenhos são dignos de nota. Para analisar alguns fatos interessantes separei dados apresentados pelo Tribunal Superior Eleitoral, em especial: (i) número de votos, (ii) valores gastos na campanha e (iii) percentual poupado = arrecadação - gastos. Com a divisão de (ii) por (i) obtemos uma medida de valor gasto por voto conquistado.

Em primeiro lugar está o número de votos válidos no primeiro turno da eleição presidencial. O desempenho de Bolsonaro de fato surpreendeu porém, é interessante notar a performance surpreendente do caricato Cabo Daciolo, que deixou para trás nomes tradicionais como Marina Silva e Henrique Meirelles.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Tribalivre

"Um dia, minha mãe me disse, você já é grande, tem que trabalhar! Naquele instante aproveitei a chance, vi que eu era livre para me virar!"

"O tempo passou depressa, e eu aqui cheguei, passei por tudo que é dificuldade, me perdi pela cidade, mas já me encontrei!"

Uma série de motivos fizeram eu consolidar minha vida na cidade de São Paulo. Um fato interessante é notar o número de famílias são originalmente de outras cidades, estados e países. Dito de outro forma, no meu convívio, é difícil encontrar uma família paulistana "raiz", na qual os avós e bisavós nasceram aqui na capital.

Minha ascendência é uma grande mistura entre a cultura baiana, árabe e espanhola, personagens de povos que por diferentes razões escolheram a cidade de São Paulo para residir, estudar, trabalhar e constituir família.

Houve um tempo em que tive pouco apreço por esta cidade, o trânsito caótico e o grande número de moradores de rua eram dois fatores que me causavam tristeza e me impediam de valorizar as oportunidades que São Paulo oferece.

A maior delas sem dúvida está ligada ao retorno e impacto da educação na vida das pessoas. No meu caso, hoje é muito fácil ver que o padrão de vida que desfruto é uma consequência direta das oportunidades profissionais que surgiram pelo acesso que tive à um ensino de qualidade, em especial uma graduação 100% gratuita custeada pelo Estado de São Paulo.

História semelhante ocorreu com diversos amigos de faculdade, os quais ascenderam à posições profissionais de destaque e hoje estão muito bem. Apesar de vários cases de sucesso, ainda hoje vivemos numa sociedade extremamente desigual, na qual a renda é extremamente concentrada.

O estudo Mapa da Desigualdade publicado pela Nossa São Paulo revela alguns indicadores alarmantes em diversas áreas como saúde, educação, criminalidade e renda na cidade de São Paulo. 

Um dado que me chamou bastante atenção é sobre a concentração imobiliária, 22.400 pessoas (1% do total de proprietários de imóveis) detém 25% dos imóveis registrados na cidade os quais somam R$ 749 bilhões. Isso equivale dizer que na média cada membro deste pequeno grupo possui um total de imóveis avaliados em cerca de R$ 34 milhões.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Discurso

Foi uma eleição cheia de polêmicas, quebra de paradigmas, memes e brigas de família, mas enfim acabou!

Após a divulgação do resultado das urnas me chamou a atenção o tom dos discursos proferidos pelo candidato eleito e por seu oponente no 2o turno da eleição presidencial .

A eleição foi uma barbárie, não houve um debate sério de ideias e o que se viu foi uma grande troca de farpas numa disputa polarizada guiada pelo tal do voto útil, que grosso modo é escolher não com base em suas convicções e alinhamento com um plano de governo mas sim com a intenção de afastar um mal maior, seja ele o conservadorismo liberal de direita ou a perpetuação de uma esquerda que partiria para o 5o mandato presidencial consecutivo.

Nesse sentido, até entendo o fato de Fernando Haddad não citar Jair Messias Bolsonaro no seu discurso ou sequer ligar para o presidente eleito para lhe dar os parabéns. Antes que algum Bolsomion me chame de petista ou comunista, basta imaginar o oposto, será que Bolsonaro iria ligar para Haddad e citá-lo no seu discurso de vitória? Ao meu ver seria impossível, porém respeito quem acredita num suposto caráter superior do futuro presidente.

É muito fácil exigir do derrotado um discurso propositivo, que una o país e que tente diminuir tensões sociais quando você não é o derrotado. 

Casos raros na nossa história mostram homens e mulheres que, mais do que se colocarem como representantes de uma determinada ideologia, mostraram a capacidade de enxergar seu papel de influência numa democracia.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Palavras ao Vento

Uma expressão popular diz que "há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida".

Aqui no Brasil os políticos desafiam parte desta expressão quando, não raramente, falam ou escrevem algo e logo depois voltam atrás, pedindo que os estimados eleitores desconsiderem aquilo que foi dito ou escrito em uma ou várias oportunidades.

Este é o caso do candidato Fernando Haddad e do Partido dos Trabalhadores que na página 17 do seu Plano de Governo defendeu a ideia de uma nova Constituição conforme transcrito abaixo:

"Para tanto, construiremos as condições de sustentação social para a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, livre, democrática, soberana e unicameral, eleita para este fim nos moldes da reforma política que preconizamos."

Mas fiquem tranquilos eleitores, ontem em entrevista ao Jornal Nacional, Haddad já voltou atrás e disse que o Partido reviu sua posição, desistindo dos planos de uma nova Constituição.

Situação idêntica ocorreu com a candidatura de Jair Bolsonaro, a qual teve que justificar a ideia levantada pelo candidato à vice-presidente General Mourão:

"Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo."

De forma análoga à Haddad, Bolsonaro também se apressou em dizer que tratou-se duma "canelada" do General Mourão, e que em seu governo haverá total respeito à Constituição. Segundo o candidato, Mourão aprenderá rápido as regras da política e não falará mais coisas deste tipo.