Home

quinta-feira, 26 de julho de 2018

O Valor de Nada

Há certo tempo li o livro The Value of Nothing do economista e escritor Raj Patel. O autor basicamente fala que hoje nós sabemos o preço de quase tudo mas o valor de quase nada.

Pode soar estranho, porém os conceitos tem uma diferença significativa, há coisas que possuem valor mas não tem preço, como por exemplo, o abraço da sua avó ou o beijo da sua namorada. Assim o valor de algo é a tradução da importância daquele item para você, seja em termos de afeto, utilidade ou mesmo monetários.

Um estudo inédito do IPEA, o qual será publicado em agosto deste ano, revelou que R$ 173 bilhões oferecidos em subsídios desde 2002 não atingiram os objetivos alcançados. 

A primeira coisa que me chama a atenção é que nunca antes na história desse país havíamos conferido a efetividade dos subsídios oferecidos pelo governo, ou seja, concedemos um bolsa-empresário aqui e ali, pregando que o incentivo iria gerar emprego e estimular a economia do país, porém, após ter gasto o dinheiro, ninguém ia lá verificar o desempenho das empresas beneficiadas.

Dificilmente o estimado leitor faria algo parecido, é como contratar um diarista, pagar adiantado pelo serviço e não checar se ele/ela foi de fato na sua casa e realizou a limpeza ou demais serviços domésticos contratados, e o mais grave, fazer isto por mais de 10 anos.

terça-feira, 17 de julho de 2018

A Revolta da Vacina

Esse com certeza não é meu principal tema de debate porém é sem sombra de dúvida um dos que me deixa mais confuso e incrédulo. 

Uma notícia publicada ontem na  mídia me chamou a atenção, o Ministério Público do RS lançou uma campanha para alertar os pais sobre a vacinação dos filhos. Não obstante, o MP ressaltou que esta é uma obrigação legal e que estava preocupado com o grande número de pessoas que, seguindo notícias da gloriosa internet, deixaram de levar seus filhos para vacinação nos postos de saúde.

Ora, com certeza os estimados leitores conhecem alguém que ouviu algo no Facebook e passou a informação adiante como uma verdade absoluta, sem ao menos criticar a fonte. Isso é muito comum com relação à factoides políticos como por exemplo "o Político X é um ladrão", "o Governo Y só rouba" e outras coisas do tipo.

Porém, será que a sociedade está com valores tão deturpados que as pessoas conseguem se convencer facilmente de que vacinar seu filho é algo ruim?

Por mais curioso que pareça já houve no ano de 1904 uma grande Revolta Popular contra a vacinação no Rio de Janeiro. Na época, a cidade era  foco de inúmeras doenças, em especial a varíola. Nesse cenário o médico Oswaldo Cruz conseguiu aprovar junto ao Congresso a Lei de Vacina Obrigatória.

A sociedade carioca tinha pouca informação sobre essa tal vacina e a resistência à Lei era baseada em explicações genéricas como supostos perigos causados pela vacinação até argumentos de cunho moral, como o fato da aplicação da vacina em regiões intimas.

A oposição foi tamanha que foi criada a Liga contra a Vacina Obrigatória e a população foi às ruas, fato que levou o Governo a declarar estado de sítio. Os confrontos deixaram 30 mortos e 110 feridos.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Inflação e Dólar caro podem agradar o Governo?

Alguns fatores ajudam a explicar a recente valorização do dólar que hoje beira os R$ 3,80 na cotação comercial. 

O primeiro e mais relevante é a subida dos juros nos EUA. Grosso modo, os investidores levam seus dólares  para os países com melhor relação risco x retorno, juros mais altos na maior potência do mundo tendem a atrair o capital de investidores que antes apostavam em países emergentes como o Brasil.

Nesse sentido, o Banco Central brasileiro pouco pode fazer no médio e longo prazo para evitar este movimento. A saída mais fácil, caso se considere o dólar "caro" um grande problema, seria elevar os juros aqui no Brasil. Isso elevaria o retorno dos ativos brasileiros e conteria uma parte desta saída de capital.

Porém há dois problemas nessa ação, o primeiro é que um Banco Central sério tem como principal missão garantir o poder de compra da moeda, ou seja, manter a inflação dentro da meta. Assim, o gatilho para aumentar juros não deveria ser motivada pelo fato do dólar subir muito mas sim qual o impacto disto sobre os preços aqui no Brasil. Como somos uma economia relativamente fechada em termos de comércio exterior o repasse inflacionário do câmbio é bem pequeno por aqui, logo, o dólar teria que ficar muito mais caro para motivar uma elevação da taxa de juros brasileira.

O segundo problema é que, caso a percepção de risco do Brasil esteja se deteriorando, o prêmio exigido pelo investidor em forma de juros para manter seu capital aqui pode ser alto demais. Posto de outra forma, neste cenário o Banco Central pode ser obrigado a elevar a taxa de juros num patamar tão alto que o benefício de segurar a cotação do dólar pode ser menor do que o efeito recessivo de juros mais altos sobre o crescimento da economia.

Essa discussão está bem ativa no momento em virtude do contexto político deste ano eleitoral. As pesquisas realizadas até o momento mostram uma tamanha pulverização que tornou factível cogitar a viabilidade de políticos que até pouco tempo pareciam "carta fora do baralho" como o caricato Bolsonaro.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Preços Livres ou Tabelados, eis a questão!

Quem acompanha o blog deve recordar que em alguns textos citei a expressão atribuída à Albert Eisntein, de que um dos sinais de insanidade é repetir um mesmo procedimento e esperar resultados diferentes.

Nessa linha, as medidas anunciadas para apaziguar os ânimos dos caminhoneiros são experimentos muito parecidos (se não iguais) àqueles que ocorreram na década de 80 e 90 e nos jogaram num cenário de barbárie inflacionária.

Essa tentativa desesperada mostra a fraqueza de um governo que, ao invés de encarar os fatos e a restrição orçamentária do Estado, optou por ceder à pressão de uma classe e lançar mão de medidas toscas como tabelamento de fretes, subsídios à combustíveis e fiscalização de postos de combustível para garantir que os preços sejam reduzidos em 46 centavos e oxalá nunca mais se movam.

Esse conjunto de medidas desesperadas é tão trágico que chega a ser cômico. 

A Constituição Federal e a Lei de Defesa da Concorrência 12.529/2011 determinam que os agentes devem ter assegurada a liberdade de desenvolvimento da atividade econômica. Será que forçar uma empresa a pagar um preço mínimo no frete ou um dono de posto a manter o preço do diesel congelado é compatível com a liberdade econômica assegurada por estes textos? É no mínimo um questionamento que com certeza será feito por quem tiver que pagar um frete mais caro ou não conseguir reajustar seus preços.

Tentar fixar preços é muito provavelmente o pecado mais grave da cartilha de qualquer economista (sério) por ferir a lei mais básica lecionada na academia, a lei da oferta e da demanda.

domingo, 27 de maio de 2018

Nossa versão de Miss Sarajevo

A canção Miss Sarajevo (lançada em 1995) da banda U2 faz uma referência à Guerra da Bósnia, um conflito armado que ocorreu entre 1992 e 1995. A principal mensagem que "tiro" da canção é que mesmo naquele cenário caótico de Guerra, ainda havia tempo para algo, digamos, pouco útil, como realizar um concurso de beleza.

Ontem, nestas terras tupiniquins, Mayra Dias, representante do Amazonas, venceu o concurso de Miss Brasil 2018. Não estamos em Guerra Civil, porém o cenário decorrente da Greve dos Caminhoneiros causa impactos semelhantes ao de uma guerra, tais como desabastecimento e impedimento da livre locomoção das pessoas.

Em primeiro lugar, este escriba não é contra o exercício do direito de greve. Numa democracia temos que comprrender e seguir as leis e, de fato, a lei 7.783 de 1989 assegura este direito para que as entidades de classe defendam os interesses dos trabalhadores.

Porém, esta Greve passou dos limites impostos por esta mesma lei; o inciso primeiro do artigo sexto diz:

"Em nenhuma hipótese, os meios adotados por empregados e empregadores poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais de outrem."

Ademais o artigo nono também destaca que o sindicato ou liderança da paralização:

"... manterá em atividades equipes de empregados com o propósito de assegurar os serviços cuja paralização resultem em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos..."

sábado, 28 de abril de 2018

Efeito Halo e Conveniência

Um dos argumentos mais comuns no repertório da desonestidade intelectual é levantar estatísticas que contribuem para seu ponto de vista e omitir aquelas que não lhe convém.

Este tipo de comportamento lembra muito o Efeito Halo , o qual resumidamente fala que as primeiras impresões contam (e muito) e criam um viés que interfere a capacidade de julgamento das pesssoas.

Imagine que você no seu ambiente de trabalho ou de estudos tenha uma experiência desagradável com algum colega logo no primeiro contato. Suponha que por exemplo você testemunhou a pessoa falando mal de outros colegas ou reparou que ela fica constantemente em redes sociais ao invés de se dedicar à suas atividades ou mesmo viu esta pessoa "furando fila". Neste caso muitas pessoas teriam dificuldade de avaliar de forma imparcial estes indivíduos, por mais que nos dias posteriores a pessoa tenha mostrado outras qualidades ou mesmo que aqueles traços de má conduta tenham sumido, é difícil acreditar que a sua primeira impressão possa estar tão errada.

Quando falamos de Economia, por mais forte que sejam nossas convicções e vieses, há sempre algo que qualquer profissional sério pode fazer para obter uma avaliação imparcial, utilizar ferramentas estatísticas que validem sua hipótese de forma robusta e a diferencie de um mero chute ou opinião de buteco.

Pois bem, quando a Reforma Trabalhista do atual Governo foi implementada, partidos políticos caracterizados como de esquerda e mesmo o folclórico Eduardo Suplicy (que fica aqui o registro foi professor titular de Economia da EESP-FGV por décadas) saíram correndo para alardear sobre as mazelas da medida que reduziu empregos após implementada.

Curiosamente (ou não), essas mesmas pessoas não vieram se pronunciar publicamente sobre os 195 mil empregos criados no período de janeiro a março de 2018 conforme divulgado pelo CAGED na semana passada (série sem ajuste sazonal).

terça-feira, 10 de abril de 2018

Placar da Rodada e a Sensação de Violência

Num passado não muito distante no qual internet, smartphones e 4G/3G eram tecnologias embrionárias ou mesmo inexistentes, uma tarefa hoje banal como a de checar os resultados da rodada de futebol eram significativamente difíceis.

Nesse contexto, nos meus idos da década de 90 (na qual ainda não possuía acesso à Internet ou mesmo TV à cabo), num domingo qualquer que eu não podia assistir ao jogo do Palestra as 16 horas na Globo ou Bandeirantes e eu retornava para casa por volta das 19 horas, as alternativas para descobrir os resultados dos jogos eram:

(i) perguntar para alguém de casa ou o vizinho, caso eles tenham assistido aos jogos;
(ii) esperar até o horário dos gols da rodada no Fantástico;
(iii) acompanhar as discussões nos programas de mesa redonda (Gazeta Esportiva, Terceiro Tempo, etc);
(iv) sintonizar no rádio uma emissora esportiva e aguardar o locutor repassar os resultados;
(v) esperar até segunda-feira para comprar o jornal na banca da esquina ou assistir ao jornal matinal  na TV;

Hoje os leitores devem concordar que essa questão é resolvida muito mais facilmente. É possível com um smatphone assistir à jogos ao vivo de qualquer lugar que estivermos. Além disso os grupos de Whatsapp, Aplicativos e Internet são ferramentas de amplo acesso que nos deixam conectados 24 horas por dia. 

Isso não se restringe aos resultados de um jogo de futebol, hoje é muito mais fácil obter informação seja do lamentável uso de armas químicas no conflito na Síria, receitas culinárias de um chef premiado num reality show ou um roteiro completo da sua próxima viagem de férias.

No último post falei sobre a execução de Marielle e Anderson no Rio de Janeiro e de lá para cá houve diversos outros casos de violência tanto na "cidade maravilhosa" como no restante do país.