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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ao vencedor as Batatas!

A expressão "Ao vencedor as Batatas" é de autoria do personagem Quincas Borba do excepcional Machado de Assis. 

A teoria de Quincas por trás dessa expressão é que, num cenário de recursos escassos, por exemplo poucas batatas para alimentar duas tribos, não é possível uma convivência pacífica entre os dois lados, de forma que a guerra é inevitável. 

Assim, a guerra seria a única forma de que alguém sobrevivesse, uma vez que tentar compartilhar os recursos seria inútil, já que todos se alimentariam abaixo de suas necessidades calóricas.

A eleição de 2018 em muito se assemelhou a uma guerra em que apenas uma verdade ou um lado poderia sobreviver, não sendo possível a existência de um pensamento contrário à certas correntes ideológicas. 

Pois bem, passado o pleito eleitoral alguns desempenhos são dignos de nota. Para analisar alguns fatos interessantes separei dados apresentados pelo Tribunal Superior Eleitoral, em especial: (i) número de votos, (ii) valores gastos na campanha e (iii) percentual poupado = arrecadação - gastos. Com a divisão de (ii) por (i) obtemos uma medida de valor gasto por voto conquistado.

Em primeiro lugar está o número de votos válidos no primeiro turno da eleição presidencial. O desempenho de Bolsonaro de fato surpreendeu porém, é interessante notar a performance surpreendente do caricato Cabo Daciolo, que deixou para trás nomes tradicionais como Marina Silva e Henrique Meirelles.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Tribalivre

"Um dia, minha mãe me disse, você já é grande, tem que trabalhar! Naquele instante aproveitei a chance, vi que eu era livre para me virar!"

"O tempo passou depressa, e eu aqui cheguei, passei por tudo que é dificuldade, me perdi pela cidade, mas já me encontrei!"

Uma série de motivos fizeram eu consolidar minha vida na cidade de São Paulo. Um fato interessante é notar o número de famílias são originalmente de outras cidades, estados e países. Dito de outro forma, no meu convívio, é difícil encontrar uma família paulistana "raiz", na qual os avós e bisavós nasceram aqui na capital.

Minha ascendência é uma grande mistura entre a cultura baiana, árabe e espanhola, personagens de povos que por diferentes razões escolheram a cidade de São Paulo para residir, estudar, trabalhar e constituir família.

Houve um tempo em que tive pouco apreço por esta cidade, o trânsito caótico e o grande número de moradores de rua eram dois fatores que me causavam tristeza e me impediam de valorizar as oportunidades que São Paulo oferece.

A maior delas sem dúvida está ligada ao retorno e impacto da educação na vida das pessoas. No meu caso, hoje é muito fácil ver que o padrão de vida que desfruto é uma consequência direta das oportunidades profissionais que surgiram pelo acesso que tive à um ensino de qualidade, em especial uma graduação 100% gratuita custeada pelo Estado de São Paulo.

História semelhante ocorreu com diversos amigos de faculdade, os quais ascenderam à posições profissionais de destaque e hoje estão muito bem. Apesar de vários cases de sucesso, ainda hoje vivemos numa sociedade extremamente desigual, na qual a renda é extremamente concentrada.

O estudo Mapa da Desigualdade publicado pela Nossa São Paulo revela alguns indicadores alarmantes em diversas áreas como saúde, educação, criminalidade e renda na cidade de São Paulo. 

Um dado que me chamou bastante atenção é sobre a concentração imobiliária, 22.400 pessoas (1% do total de proprietários de imóveis) detém 25% dos imóveis registrados na cidade os quais somam R$ 749 bilhões. Isso equivale dizer que na média cada membro deste pequeno grupo possui um total de imóveis avaliados em cerca de R$ 34 milhões.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Discurso

Foi uma eleição cheia de polêmicas, quebra de paradigmas, memes e brigas de família, mas enfim acabou!

Após a divulgação do resultado das urnas me chamou a atenção o tom dos discursos proferidos pelo candidato eleito e por seu oponente no 2o turno da eleição presidencial .

A eleição foi uma barbárie, não houve um debate sério de ideias e o que se viu foi uma grande troca de farpas numa disputa polarizada guiada pelo tal do voto útil, que grosso modo é escolher não com base em suas convicções e alinhamento com um plano de governo mas sim com a intenção de afastar um mal maior, seja ele o conservadorismo liberal de direita ou a perpetuação de uma esquerda que partiria para o 5o mandato presidencial consecutivo.

Nesse sentido, até entendo o fato de Fernando Haddad não citar Jair Messias Bolsonaro no seu discurso ou sequer ligar para o presidente eleito para lhe dar os parabéns. Antes que algum Bolsomion me chame de petista ou comunista, basta imaginar o oposto, será que Bolsonaro iria ligar para Haddad e citá-lo no seu discurso de vitória? Ao meu ver seria impossível, porém respeito quem acredita num suposto caráter superior do futuro presidente.

É muito fácil exigir do derrotado um discurso propositivo, que una o país e que tente diminuir tensões sociais quando você não é o derrotado. 

Casos raros na nossa história mostram homens e mulheres que, mais do que se colocarem como representantes de uma determinada ideologia, mostraram a capacidade de enxergar seu papel de influência numa democracia.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Palavras ao Vento

Uma expressão popular diz que "há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida".

Aqui no Brasil os políticos desafiam parte desta expressão quando, não raramente, falam ou escrevem algo e logo depois voltam atrás, pedindo que os estimados eleitores desconsiderem aquilo que foi dito ou escrito em uma ou várias oportunidades.

Este é o caso do candidato Fernando Haddad e do Partido dos Trabalhadores que na página 17 do seu Plano de Governo defendeu a ideia de uma nova Constituição conforme transcrito abaixo:

"Para tanto, construiremos as condições de sustentação social para a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, livre, democrática, soberana e unicameral, eleita para este fim nos moldes da reforma política que preconizamos."

Mas fiquem tranquilos eleitores, ontem em entrevista ao Jornal Nacional, Haddad já voltou atrás e disse que o Partido reviu sua posição, desistindo dos planos de uma nova Constituição.

Situação idêntica ocorreu com a candidatura de Jair Bolsonaro, a qual teve que justificar a ideia levantada pelo candidato à vice-presidente General Mourão:

"Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo."

De forma análoga à Haddad, Bolsonaro também se apressou em dizer que tratou-se duma "canelada" do General Mourão, e que em seu governo haverá total respeito à Constituição. Segundo o candidato, Mourão aprenderá rápido as regras da política e não falará mais coisas deste tipo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Eleições e o Concurso de Beleza de Keynes

Inveja é um sentimento ruim, um dos famigerados sete pecados capitais. Se fosse possível nutrir alguma espécie de "inveja boa" por alguma pessoa, eu teria esse sentimento por John Maynard Keynes.

Seu livro "A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda" é o livro de maior impacto que já tive o prazer de ler, principalmente quando se coloca o contexto histórico em que foi lançado, pós crise de 1929.

No capítulo XII, Keynes sugere que as decisões dos indivíduos não são tomadas por suas convicções mas sim pelo que eles imaginam ser a opinião das outras pessoas.

O economista descreve um concurso de beleza em que os candidatos deveriam escolher 6 rostos dentre milhares de opções. O vencedor seria aquele que as escolhas estivessem mais próximas da média das opiniões. Não se trata portanto apenas de escolher os rostos mais bonitos, mas de escolher aqueles que mais se aproximam da opinião dos demais.

Contextualizando, imagine que você tem uma forte preferência por pessoas loiras de olhos claros, porém, acredita que na média as pessoas preferem em geral morenas de cabelo escuro, a estratégia para vencer este concurso seria abandonar sua convicção/preferência pessoal e selecionar rostos de acordo com a probabilidade de agradar o maior número de pessoas.

O leitor com certeza conhece alguém que provavelmente não leu Keynes mas justifica sua intenção de voto nesta eleição com base no chamado "voto útil", ou seja, não estou votando no melhor programa de governo ou no candidato com melhor histórico mas sim naquele candidato que tem maior probabilidade de vitória.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Conversa de Araque

Talvez não seja uma expressão tão ouvida nos últimos tempos, mas quando pegamos alguém falando alguma mentira ou estória exagerada, podemos falar que esta é uma conversa de araque.

A palavra araque deriva da bebida alcoólica arábe "arak", um destilado feito com seiva de palmeira ou do arroz. Assim, a expressão foi criada para tratar de uma conversa entre pessoas geralmente embriagadas, dotadas de pouco discernimento após tomarem algumas doses de "arak".

Nesta eleição alguns economistas (se é que podemos chamá-los assim), na função de assessores dos candidatos à presidência, apresentaram ideias no mínimo esdrúxulas. Mesmo sem aparentemente terem tomado "arak" ou qualquer outra bebida alcoólica, algumas das medidas propostas parecem mais devaneios do que uma medida econômica.

Este é o caso por exemplo de Paulo Guedes, o economista por trás do candidato Bolsonaro, o qual atestou ser possível levantar R$ 1.0 trilhão em privatizações. Ora, o governo possui de fato este montante aproximado em ativos porém as participações em estatais (incluindo Petrobrás) somam cerca de R$ 250 bilhões, o restante são estradas, escolas e parques os quais Paulo Guedes não deixa muito claro como seriam privatizados.

Outra medida folclórica é o Programa Nome Limpo de Mauro Benevides e Ciro Gomes, isso mesmo Pai Ciro irá limpar seu nome do SPC! E como funcionaria na prática? Ciro iria negociar juros e multas e brigaria por um desconto de 70% referente aos juros abusivos da sua dívida. O saldo devedor seria financiado num esquema de aval solidário no qual, quando um devedor der calote, outros quatro seriam responsáveis pela dívida. Lindo não? Mas atenção, caso Ciro seja eleito, esta barganha só será válida para quem estava com o nome no SPC até 20 de julho de 2018.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Quinze Minutos de Fama

Começou o horário político! Talvez seja sintoma da idade porém confesso que estava ansioso para este momento, principalmente pela oportunidade de analisar a estratégia de cada candidato, com a ressalva dos diferentes tempos de TV, que variam entre 5 segundos a 5 minutos e meio.

Imitando o jogo de ligar os pontos, listei abaixo numa coluna os bordões apresentados no horário eleitoral de primeiro de setembro e na outra coluna os respectivos candidatos, a maioria é bem fácil de adivinhar mas não deixa de ser um exercício interessante:


Além dos candidatos folclóricos e (algumas) propostas estapafúrdias, estas eleições trouxeram uma novidade em comparação à outros que participei, nunca antes na história deste país houve um consenso quase unânime entre os candidatos de que Reformas Econômicas são essenciais para garantir a estabilidade do país.

Não à toa, além de debates e rodas vivas com os próprios candidatos, neste ano já foram realizados um número significativo de debates na mídia com os Economistas por trás destes 12 presidenciáveis. Há discordância no formato das Reformas que devem ser implementadas, porém três tópicos aparecem no discurso de quase todas as equipes: Previdência, Reforma Tributária e o fim de Privilégios para determinadas classes.

Este ímpeto reformista nem de longe é motivado por um planejamento de longo prazo visando o desenvolvimento do país, como quase tudo o que ocorre na política tupiniquim, medidas desta magnitude só são implementadas quando a água bate no pescoço, uma parábola que na atual conjuntura seria melhor traduzida como a água bate no teto (de gastos).

Apesar do aparente clima de tranquilidade que paira no ar (com exceção da escalada da cotação do dólar nas últimas semanas) estamos diante de uma bomba relógio alimentado pelo crescimento dos gastos públicos. 

A aprovação da PEC do Teto de Gastos em 2016 nos colocou numa situação limite em que medidas duras deverão ser tomadas para garantir a viabilidade do orçamento do Estado brasileiro nos próximos anos.

Nesse sentido as últimas notícias anunciadas de aumento de salários do judiciário e dos servidores públicos são preocupantes. De forma resumida, tudo mais constante, isso implicará num aumento de gastos do Governo, o que aumenta o risco de descumprimento do Teto de Gastos.

E o que acontece se rompermos o teto? As principais sanções seriam (i) proibição de elevar despesas como salários de servidores, (ii) proibição de aumento superior à inflação para o salário mínimo, (iii) proibição de abertura de concursos públicos e (iv) proibição de criação e expansão de programas e concessão de incentivos fiscais.

Estas consequências são o maior temor de qualquer candidato que se preze e não por outro motivo se discutem formas de diminuir o gasto público com salários e aposentadorias, cortar privilégios de funcionários públicos e, mesmo se isso for insuficiente, elevar ou criar algum imposto como as propostas de taxação de dividendos e maior tributação de heranças.

O reconhecimento e discussão de um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Resta esperar que aqueles quer forem eleitos neste ano mantenham esta discussão viva quando assumirem o poder. Afinal seria extremamente desapontador vivenciar novos episódios de estelionato eleitoral na política brasileira.