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domingo, 27 de maio de 2018

Nossa versão de Miss Sarajevo

A canção Miss Sarajevo (lançada em 1995) da banda U2 faz uma referência à Guerra da Bósnia, um conflito armado que ocorreu entre 1992 e 1995. A principal mensagem que "tiro" da canção é que mesmo naquele cenário caótico de Guerra, ainda havia tempo para algo, digamos, pouco útil, como realizar um concurso de beleza.

Ontem, nestas terras tupiniquins, Mayra Dias, representante do Amazonas, venceu o concurso de Miss Brasil 2018. Não estamos em Guerra Civil, porém o cenário decorrente da Greve dos Caminhoneiros causa impactos semelhantes ao de uma guerra, tais como desabastecimento e impedimento da livre locomoção das pessoas.

Em primeiro lugar, este escriba não é contra o exercício do direito de greve. Numa democracia temos que comprrender e seguir as leis e, de fato, a lei 7.783 de 1989 assegura este direito para que as entidades de classe defendam os interesses dos trabalhadores.

Porém, esta Greve passou dos limites impostos por esta mesma lei; o inciso primeiro do artigo sexto diz:

"Em nenhuma hipótese, os meios adotados por empregados e empregadores poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais de outrem."

Ademais o artigo nono também destaca que o sindicato ou liderança da paralização:

"... manterá em atividades equipes de empregados com o propósito de assegurar os serviços cuja paralização resultem em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos..."

sábado, 28 de abril de 2018

Efeito Halo e Conveniência

Um dos argumentos mais comuns no repertório da desonestidade intelectual é levantar estatísticas que contribuem para seu ponto de vista e omitir aquelas que não lhe convém.

Este tipo de comportamento lembra muito o Efeito Halo , o qual resumidamente fala que as primeiras impresões contam (e muito) e criam um viés que interfere a capacidade de julgamento das pesssoas.

Imagine que você no seu ambiente de trabalho ou de estudos tenha uma experiência desagradável com algum colega logo no primeiro contato. Suponha que por exemplo você testemunhou a pessoa falando mal de outros colegas ou reparou que ela fica constantemente em redes sociais ao invés de se dedicar à suas atividades ou mesmo viu esta pessoa "furando fila". Neste caso muitas pessoas teriam dificuldade de avaliar de forma imparcial estes indivíduos, por mais que nos dias posteriores a pessoa tenha mostrado outras qualidades ou mesmo que aqueles traços de má conduta tenham sumido, é difícil acreditar que a sua primeira impressão possa estar tão errada.

Quando falamos de Economia, por mais forte que sejam nossas convicções e vieses, há sempre algo que qualquer profissional sério pode fazer para obter uma avaliação imparcial, utilizar ferramentas estatísticas que validem sua hipótese de forma robusta e a diferencie de um mero chute ou opinião de buteco.

Pois bem, quando a Reforma Trabalhista do atual Governo foi implementada, partidos políticos caracterizados como de esquerda e mesmo o folclórico Eduardo Suplicy (que fica aqui o registro foi professor titular de Economia da EESP-FGV por décadas) saíram correndo para alardear sobre as mazelas da medida que reduziu empregos após implementada.

Curiosamente (ou não), essas mesmas pessoas não vieram se pronunciar publicamente sobre os 195 mil empregos criados no período de janeiro a março de 2018 conforme divulgado pelo CAGED na semana passada (série sem ajuste sazonal).

terça-feira, 10 de abril de 2018

Placar da Rodada e a Sensação de Violência

Num passado não muito distante no qual internet, smartphones e 4G/3G eram tecnologias embrionárias ou mesmo inexistentes, uma tarefa hoje banal como a de checar os resultados da rodada de futebol eram significativamente difíceis.

Nesse contexto, nos meus idos da década de 90 (na qual ainda não possuía acesso à Internet ou mesmo TV à cabo), num domingo qualquer que eu não podia assistir ao jogo do Palestra as 16 horas na Globo ou Bandeirantes e eu retornava para casa por volta das 19 horas, as alternativas para descobrir os resultados dos jogos eram:

(i) perguntar para alguém de casa ou o vizinho, caso eles tenham assistido aos jogos;
(ii) esperar até o horário dos gols da rodada no Fantástico;
(iii) acompanhar as discussões nos programas de mesa redonda (Gazeta Esportiva, Terceiro Tempo, etc);
(iv) sintonizar no rádio uma emissora esportiva e aguardar o locutor repassar os resultados;
(v) esperar até segunda-feira para comprar o jornal na banca da esquina ou assistir ao jornal matinal  na TV;

Hoje os leitores devem concordar que essa questão é resolvida muito mais facilmente. É possível com um smatphone assistir à jogos ao vivo de qualquer lugar que estivermos. Além disso os grupos de Whatsapp, Aplicativos e Internet são ferramentas de amplo acesso que nos deixam conectados 24 horas por dia. 

Isso não se restringe aos resultados de um jogo de futebol, hoje é muito mais fácil obter informação seja do lamentável uso de armas químicas no conflito na Síria, receitas culinárias de um chef premiado num reality show ou um roteiro completo da sua próxima viagem de férias.

No último post falei sobre a execução de Marielle e Anderson no Rio de Janeiro e de lá para cá houve diversos outros casos de violência tanto na "cidade maravilhosa" como no restante do país. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

O que está acontecendo?

Hoje a Economia será pano de fundo pois é um dia muito triste. O assassinato da vereadora Marielle Franco no centro do Rio de Janeiro é uma das coisas mais brutais que me recordo aqui no Brasil.

Já não bastava a situação de calamidade da "cidade maravilhosa" que hoje está sob intervenção federal, esse crime foi um ato de barbárie num país no qual morrem mais pessoas do que na Guerra da Síria.

Isso mesmo meus amigos, viver no Brasil é tão perigoso quanto viver num cenário de guerra. Somos o país que mais mata em todo o mundo.

Não vou enganar ninguém, nunca havia ouvido falar de Marielle, não sabia de sua infância na Favela da Maré, de sua formação como socióloga na PUC-RJ e nem que havia recebido a 5a maior votação na eleição de vereadora (em sua primeira campanha).

Também não sabia de sua luta em defesa de minorias e da sua coragem de encarar de frente situações polêmicas como criticar abertamente o 41o batalhão da Polícia Militar que usava de força excessiva para lidar com a população das favelas.

terça-feira, 6 de março de 2018

Ganhar mais ou Gastar melhor?

Quando chega o fim do mês (as vezes até antes mesmo do fim) e vemos que não conseguimos poupar e investir parte da nossa renda, uma das primeiras hipóteses levantadas é a de que precisamos ganhar mais, ter um salário maior para compatível com os nossos gastos do dia a dia.

Num segundo momento começamos a ver o que podemos cortar ou substituir por alternativas mais acessíveis, diminuímos o número de refeições fora do domicílio, trocamos o carro pelo transporte público e até mesmo cogitamos mudar de casa para e mudarmos para uma região mais barata.

No final do dia, o melhor dos mundos é recorrer aos dois expedientes, ou seja, ser contemplado com uma promoção ou aumento salarial e diminuir gastos supérfluos ou não tão essenciais. 

Como ser promovido no trabalho não depende (no limite) de nós mesmos, com exceção de alguns políticos que votam o próprio aumento de salário, o melhor que podemos fazer para garantir uma situação financeira equilibrada é buscar sempre que possível alternativas de consumo de menor custo.

Duas matérias recentemente abordam a situação da Segurança Pública no Rio de Janeiro sobre estes dois prismas, de um lado a reportagem do UOL mostra que em 10 anos os gastos com segurança do Estado duplicaram enquanto a coluna de Marcos Lisboa aborda que esta elevação foi usado basicamente para cobrir o aumento expressivo da Folha de Pagamento de policiais da Ativa e Aposentados, deixando em segundo plano investimentos em veículos, armas e inteligência de combate ao crime.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O que queremos?

Na década de 90, o grande problema para ser resolvido era a Inflação. Foram lançados diversos planos (fracassados), inúmeras moedas em circulação e uma tentativa estapafúrdia de sequestro da poupança de milhares de brasileiros pela dupla Collor e Zélia.

Eu era um garoto mas lembro bem do ano de 1994 que marcou a vida de todos os brasileiros.

Ayrton Senna nos deixou no dia Primeiro de Maio daquele ano e nossas manhãs de domingo nunca mais foram as mesmas.

Em 17 de Julho, Baggio perde um penalty e o Brasil é campeão da Copa do Mundo após 24 anos; a conquista não apagou a perda de Senna mas encheu o país de alegria e principalmente de confiança.

No pano de fundo de lágrimas de tristeza e alegria, por meio da Medida Provisória 434, alguns políticos e economistas capitaneavam o Plano Real no início daquele ano, algo que mudou profundamente os rumos do nosso país.

A figura no final deste texto mostra a inflação medida pelo IPCA, não é difícil ver o impacto do Plano Real, saímos de um patamar de alta de preços mensal de 45% para uma estabilidade que perdura até os dias de hoje, apesar dos devaneios praticados no governo Dilma.

Apesar de ser consenso que o Plano Real resolveu o mais grave problema daquela época, é importante destacar que não foi um plano fácil de se digerir. Sem entrar tanto nos detalhes técnicos mas, para segurar a inflação e a cotação do dólar, o principal instrumento do Banco Central era  colocar a Taxa de Juros nas alturas.

Em outras palavras a inflação ficou sob controle, porém os Juros eram tão altos que desestimulavam o consumo das famílias e o dólar tão baixo que estimulava a importação em detrimento do produto nacional. Dá pra imaginar que a FIESP e economistas heterodoxos provavelmente não gostavam muito desse cenário, talvez no frigir dos ovos preferissem a inflação.

Com esses focos de pressão, como FHC, Gustavo Franco, Pedro Malan, Pérsio Arida e outros envolvidos conseguiram manter suas convicções e não ceder a tentação e liberar geral?

Basicamente, além de serem pessoas hábeis e acreditar nas próprias convicções, um fator importante foi o apoio do povo. Não à toa FHC foi eleito presidente no primeiro turno das eleições de 94 e reeleito em 98.

A inflação era algo muito "tangível" para a sociedade naquela época. Os últimos anos de relativa calmaria dão a impressão que somos imúnes, que nada pode trazer este passado nefasto de volta. Porém meus caros, sinto lhes informar que se não promovermos mudanças profundas no Gasto Público e em especial na Previdência, logo mais estaremos de volta aos galopes inflacionários dos anos 80 e 90.

Uma das lembranças que tenho é de ir na padaria com notas de Cruzeiro e o "tiozinho do Caixa" olhar uma tabela de conversão para URV e posteriormente para o Real. Eu ficava impressionado porque os Cruzeiros pareciam notas de Banco Imobiliário, você juntava várias delas, com números bem grandes e conseguia comprar algo como 5 pãezinhos.

Apesar das lembranças afetivas do ano de 1994 espero que ainda seja possível encontrar um caminho para que não marchemos à passos largos de volta àquela realidade. Não vamos nos iludir com o atual cenário de juros baixos e inflação sob controle, o mesmo repousa em bases tão frágeis quanto à própria credibilidade do governo, como disse no último post se nada for feito o Brasil de amanhã será o Rio de Janeiro de hoje.


domingo, 4 de fevereiro de 2018

E se proibíssem os Bloquinhos hoje?

Andando pelas ruas de São Paulo ou pelo metrô da cidade neste final de semana foi fácil ver como os Bloquinhos de Caranaval se consolidaram como uma grande atração para o paulistano.

Serão cerca de 491 desfiles do mais variados tipos e atendendo aos mais diferentes gostos e públicos. A grande concentração na região do Largo da Batata inclusive trouxe um certo caos à Linha Amarela de Metrô, a qual teve estações fechadas, invasão de trilhos e acionamento indevido de botões de emergência.

Tirando os impactos do precário nível educacional e falta de bom senso da média da população da cidade, o que fica patente é a grande demanda paulistana por opções de entretenimento, fato que também se reflete todo domingo com a invasão da Avenida Paulista por milhares de pessoas das mais diferentes tribos.

Se fechar Ruas e Avenidas da Cidade e autorizar músicos em trios elétricos ou em pequenas esquinas tem um potencial de atrair tanta gente, estas iniciativas deveriam ser estimuladas ou inibidas? 

Posto de outra forma, o que é melhor para a sociedade, a alegria de foliões trajados de unicórnios e noivinhas ou o sossego das pessoas que utilizam aquelas ruas e vias públicas para se locomover nas idas e vindas  de suas casas?

Mais do que defender um lado ou outro, o mais importante nesta análise é perceber que esta medida beneficiará um grupo em detrimento de outro, ou seja, haverá pessoas impactadas de formas diferentes pela mesma intervenção na cidade.

Os defensores dos bloquinhos irão falar que é uma medida extremamente barata de ser executada frente ao lazer que proporciona à milhares de pessoas. Os opositores irão levantar a degradação da cidade, o volume de lixo acumulado (e os posteriores gastos de limpeza da prefeitura) e o transtorno nas vias de trânsito e transporte público.

Hoje os Bloquinhos estão em alta, pelo que percebo tem amplo apoio, vide o número de pessoas nas ruas, e aqui se destaca, dos mais variados níveis de renda. Mas o que ocorreria se no futuro o balanço de prejuízos superasse os benefícios de lazer? 

Se no futuro houver mais lixo nas ruas, queixas de roubos, assaltos, tentativas de abuso sexual e vandalismo, como o Prefeito deveria abordar a questão se quiser convencer a população de que os Bloquinhos fazem mais mal do que bem para a sociedade?