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terça-feira, 10 de abril de 2018

Placar da Rodada e a Sensação de Violência

Num passado não muito distante no qual internet, smartphones e 4G/3G eram tecnologias embrionárias ou mesmo inexistentes, uma tarefa hoje banal como a de checar os resultados da rodada de futebol eram significativamente difíceis.

Nesse contexto, nos meus idos da década de 90 (na qual ainda não possuía acesso à Internet ou mesmo TV à cabo), num domingo qualquer que eu não podia assistir ao jogo do Palestra as 16 horas na Globo ou Bandeirantes e eu retornava para casa por volta das 19 horas, as alternativas para descobrir os resultados dos jogos eram:

(i) perguntar para alguém de casa ou o vizinho, caso eles tenham assistido aos jogos;
(ii) esperar até o horário dos gols da rodada no Fantástico;
(iii) acompanhar as discussões nos programas de mesa redonda (Gazeta Esportiva, Terceiro Tempo, etc);
(iv) sintonizar no rádio uma emissora esportiva e aguardar o locutor repassar os resultados;
(v) esperar até segunda-feira para comprar o jornal na banca da esquina ou assistir ao jornal matinal  na TV;

Hoje os leitores devem concordar que essa questão é resolvida muito mais facilmente. É possível com um smatphone assistir à jogos ao vivo de qualquer lugar que estivermos. Além disso os grupos de Whatsapp, Aplicativos e Internet são ferramentas de amplo acesso que nos deixam conectados 24 horas por dia. 

Isso não se restringe aos resultados de um jogo de futebol, hoje é muito mais fácil obter informação seja do lamentável uso de armas químicas no conflito na Síria, receitas culinárias de um chef premiado num reality show ou um roteiro completo da sua próxima viagem de férias.

No último post falei sobre a execução de Marielle e Anderson no Rio de Janeiro e de lá para cá houve diversos outros casos de violência tanto na "cidade maravilhosa" como no restante do país. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

O que está acontecendo?

Hoje a Economia será pano de fundo pois é um dia muito triste. O assassinato da vereadora Marielle Franco no centro do Rio de Janeiro é uma das coisas mais brutais que me recordo aqui no Brasil.

Já não bastava a situação de calamidade da "cidade maravilhosa" que hoje está sob intervenção federal, esse crime foi um ato de barbárie num país no qual morrem mais pessoas do que na Guerra da Síria.

Isso mesmo meus amigos, viver no Brasil é tão perigoso quanto viver num cenário de guerra. Somos o país que mais mata em todo o mundo.

Não vou enganar ninguém, nunca havia ouvido falar de Marielle, não sabia de sua infância na Favela da Maré, de sua formação como socióloga na PUC-RJ e nem que havia recebido a 5a maior votação na eleição de vereadora (em sua primeira campanha).

Também não sabia de sua luta em defesa de minorias e da sua coragem de encarar de frente situações polêmicas como criticar abertamente o 41o batalhão da Polícia Militar que usava de força excessiva para lidar com a população das favelas.

terça-feira, 6 de março de 2018

Ganhar mais ou Gastar melhor?

Quando chega o fim do mês (as vezes até antes mesmo do fim) e vemos que não conseguimos poupar e investir parte da nossa renda, uma das primeiras hipóteses levantadas é a de que precisamos ganhar mais, ter um salário maior para compatível com os nossos gastos do dia a dia.

Num segundo momento começamos a ver o que podemos cortar ou substituir por alternativas mais acessíveis, diminuímos o número de refeições fora do domicílio, trocamos o carro pelo transporte público e até mesmo cogitamos mudar de casa para e mudarmos para uma região mais barata.

No final do dia, o melhor dos mundos é recorrer aos dois expedientes, ou seja, ser contemplado com uma promoção ou aumento salarial e diminuir gastos supérfluos ou não tão essenciais. 

Como ser promovido no trabalho não depende (no limite) de nós mesmos, com exceção de alguns políticos que votam o próprio aumento de salário, o melhor que podemos fazer para garantir uma situação financeira equilibrada é buscar sempre que possível alternativas de consumo de menor custo.

Duas matérias recentemente abordam a situação da Segurança Pública no Rio de Janeiro sobre estes dois prismas, de um lado a reportagem do UOL mostra que em 10 anos os gastos com segurança do Estado duplicaram enquanto a coluna de Marcos Lisboa aborda que esta elevação foi usado basicamente para cobrir o aumento expressivo da Folha de Pagamento de policiais da Ativa e Aposentados, deixando em segundo plano investimentos em veículos, armas e inteligência de combate ao crime.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O que queremos?

Na década de 90, o grande problema para ser resolvido era a Inflação. Foram lançados diversos planos (fracassados), inúmeras moedas em circulação e uma tentativa estapafúrdia de sequestro da poupança de milhares de brasileiros pela dupla Collor e Zélia.

Eu era um garoto mas lembro bem do ano de 1994 que marcou a vida de todos os brasileiros.

Ayrton Senna nos deixou no dia Primeiro de Maio daquele ano e nossas manhãs de domingo nunca mais foram as mesmas.

Em 17 de Julho, Baggio perde um penalty e o Brasil é campeão da Copa do Mundo após 24 anos; a conquista não apagou a perda de Senna mas encheu o país de alegria e principalmente de confiança.

No pano de fundo de lágrimas de tristeza e alegria, por meio da Medida Provisória 434, alguns políticos e economistas capitaneavam o Plano Real no início daquele ano, algo que mudou profundamente os rumos do nosso país.

A figura no final deste texto mostra a inflação medida pelo IPCA, não é difícil ver o impacto do Plano Real, saímos de um patamar de alta de preços mensal de 45% para uma estabilidade que perdura até os dias de hoje, apesar dos devaneios praticados no governo Dilma.

Apesar de ser consenso que o Plano Real resolveu o mais grave problema daquela época, é importante destacar que não foi um plano fácil de se digerir. Sem entrar tanto nos detalhes técnicos mas, para segurar a inflação e a cotação do dólar, o principal instrumento do Banco Central era  colocar a Taxa de Juros nas alturas.

Em outras palavras a inflação ficou sob controle, porém os Juros eram tão altos que desestimulavam o consumo das famílias e o dólar tão baixo que estimulava a importação em detrimento do produto nacional. Dá pra imaginar que a FIESP e economistas heterodoxos provavelmente não gostavam muito desse cenário, talvez no frigir dos ovos preferissem a inflação.

Com esses focos de pressão, como FHC, Gustavo Franco, Pedro Malan, Pérsio Arida e outros envolvidos conseguiram manter suas convicções e não ceder a tentação e liberar geral?

Basicamente, além de serem pessoas hábeis e acreditar nas próprias convicções, um fator importante foi o apoio do povo. Não à toa FHC foi eleito presidente no primeiro turno das eleições de 94 e reeleito em 98.

A inflação era algo muito "tangível" para a sociedade naquela época. Os últimos anos de relativa calmaria dão a impressão que somos imúnes, que nada pode trazer este passado nefasto de volta. Porém meus caros, sinto lhes informar que se não promovermos mudanças profundas no Gasto Público e em especial na Previdência, logo mais estaremos de volta aos galopes inflacionários dos anos 80 e 90.

Uma das lembranças que tenho é de ir na padaria com notas de Cruzeiro e o "tiozinho do Caixa" olhar uma tabela de conversão para URV e posteriormente para o Real. Eu ficava impressionado porque os Cruzeiros pareciam notas de Banco Imobiliário, você juntava várias delas, com números bem grandes e conseguia comprar algo como 5 pãezinhos.

Apesar das lembranças afetivas do ano de 1994 espero que ainda seja possível encontrar um caminho para que não marchemos à passos largos de volta àquela realidade. Não vamos nos iludir com o atual cenário de juros baixos e inflação sob controle, o mesmo repousa em bases tão frágeis quanto à própria credibilidade do governo, como disse no último post se nada for feito o Brasil de amanhã será o Rio de Janeiro de hoje.


domingo, 4 de fevereiro de 2018

E se proibíssem os Bloquinhos hoje?

Andando pelas ruas de São Paulo ou pelo metrô da cidade neste final de semana foi fácil ver como os Bloquinhos de Caranaval se consolidaram como uma grande atração para o paulistano.

Serão cerca de 491 desfiles do mais variados tipos e atendendo aos mais diferentes gostos e públicos. A grande concentração na região do Largo da Batata inclusive trouxe um certo caos à Linha Amarela de Metrô, a qual teve estações fechadas, invasão de trilhos e acionamento indevido de botões de emergência.

Tirando os impactos do precário nível educacional e falta de bom senso da média da população da cidade, o que fica patente é a grande demanda paulistana por opções de entretenimento, fato que também se reflete todo domingo com a invasão da Avenida Paulista por milhares de pessoas das mais diferentes tribos.

Se fechar Ruas e Avenidas da Cidade e autorizar músicos em trios elétricos ou em pequenas esquinas tem um potencial de atrair tanta gente, estas iniciativas deveriam ser estimuladas ou inibidas? 

Posto de outra forma, o que é melhor para a sociedade, a alegria de foliões trajados de unicórnios e noivinhas ou o sossego das pessoas que utilizam aquelas ruas e vias públicas para se locomover nas idas e vindas  de suas casas?

Mais do que defender um lado ou outro, o mais importante nesta análise é perceber que esta medida beneficiará um grupo em detrimento de outro, ou seja, haverá pessoas impactadas de formas diferentes pela mesma intervenção na cidade.

Os defensores dos bloquinhos irão falar que é uma medida extremamente barata de ser executada frente ao lazer que proporciona à milhares de pessoas. Os opositores irão levantar a degradação da cidade, o volume de lixo acumulado (e os posteriores gastos de limpeza da prefeitura) e o transtorno nas vias de trânsito e transporte público.

Hoje os Bloquinhos estão em alta, pelo que percebo tem amplo apoio, vide o número de pessoas nas ruas, e aqui se destaca, dos mais variados níveis de renda. Mas o que ocorreria se no futuro o balanço de prejuízos superasse os benefícios de lazer? 

Se no futuro houver mais lixo nas ruas, queixas de roubos, assaltos, tentativas de abuso sexual e vandalismo, como o Prefeito deveria abordar a questão se quiser convencer a população de que os Bloquinhos fazem mais mal do que bem para a sociedade?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Ao Mestre com Carinho

Iniciei este Blog em Julho de 2015; desde então foram 87 postagens (algumas boas, outras reconheço não tão boas) numa média de quase 3 postagens por mês.

Neste tempo gastei muitas palavras com brasileiros (e alguns estrangeiros) os quais eu não tenho qualquer simpatia e estão longe de serem exemplos ou inspiração para qualquer um. 

Ouvindo as músicas de Cartola, pensei em variar um pouco e falar de uma pessoa que admiro tanto pela genialidade como pela simplicidade, mesmo sem este ser um economista.

Falar de Angenor de Oliveira "Cartola" é muito fácil, apenas organizei em bullets a história deste poeta genial. Cartola é um exemplo de como às vezes não valorizamos as coisas que temos de bom aqui nestas terras tupinquins.

Composições antológicas deste mito lhe renderam pouco dinheiro e sucesso, sua vida foi em grande parte marcada por "biscates", problemas com bebida e doenças das mais diversas. 

Atingiu o reconhecimento público e alguma fama quando já tinha cerca de 70 anos.

Isso tudo me faz refletir se não gastamos muito tempo falando de "mesquinharias", ou mesmo buscando incessantemente atingir uma posição de sucesso aos 30 e poucos anos, esquecendo assim de valorizar o que temos de belo neste mundo.

Ao Mestre fica essa pequena retrospectiva a qual no processo de pesquisa de dados só me fez dar ainda mais valor ao maior sambista de todos os tempos, na minha humilde opinião.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Para que analisar os Dados se já tenho a Conclusão?

Um dos erros mais comuns do ser humano é tomar conclusões precipitadas. Muitas vezes, vemos uma manchete de jornal interessante e antes mesmo de ler a matéria por completo, encaminhamos aos grupos de whatsapp ou soltamos a informação como um "bullet" na roda de amigos.

Quando se trata de um assunto banal como a eleição de Anitta para "A mulher do Ano" ou a nova contratação do seu time de futebol, ser impreciso ao expor sua ideia é inofensivo, porém quando se trata de economistas que analisam um dado com a mesma seriedade de quem vai à feira comprar alho e cebola é uma grande picaretagem.

O Ministério do Trabalho divulga mensalmente os dados de emprego formal no CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Para o mês de Novembro de 2017 as demissões superaram as contratações em cerca de 12 mil empregos.

Coincidentemente, Novembro foi o mês que entrou em vigor a nova lei trabalhista, a qual flexibilizou uma série de normas e instituiu, dentre outras coisas, o trabalho intermitente e a jornada parcial.

Não demorou para opositores de plantão lançarem o clássico bordão "eu avisei" para minar a eficácia da Reforma Trabalhista como geradora de empregos, porém há algumas inconsistências nesta colocação, principalmente quando realizada por economistas.

A primeira falha grave é um dos grandes debates da Econometria, a diferença entre correlação e causalidade.

Por exemplo no caso de criminalidade, bairros mais seguros em geral são aqueles com menor presença policial; com base nesse argumento a solução para diminuir o número de crimes seria tirar os policiais da rua? Obviamente não, as greves de policiais militares no Espirito Santo no início de 2017 e atualmente no Rio Grande do Norte são provas cabais de que essa não é a resposta.

No caso dos bairros de maior segurança há provavelmente alguma outra variável que de fato explica o baixo índice de criminalidade como por exemplo presença de vigilância privada ostensiva. Nesse caso relacionar a ausência de policiamento militar com maior segurança é o que chamamos de correlação espúria.

Responsabilizar uma Reforma que entrou em vigor no dia 11 de Novembro com a queda de empregos formais no mês, sem qualquer teste estatístico de causalidade, é um argumento tão consistente quanto o da Maldição de Ramsey, a qual diz que uma celebridade morre dias ou horas após o atacante britânico fazer um gol.